sexta-feira, 4 de setembro de 2020

'VIROU UM PESADELO', DIZ ESPOSA DE HOMEM QUE ENCONTROU METEORITO DE 38 KG EM SANTA FILOMENA

 


Dinheiro não cai do céu”, diz um ditado popular bastante conhecido, mas este não foi o caso de algumas pessoas que encontraram fragmentos da chuva de meteorito que caiu no município de Santa Filomena, no sertão pernambucano, a 719 km do Recife.

Conforme o G1 mostrou no domingo (31), quem achou os fragmentos ganhou dinheiro com o comércio das pedras, que estão sendo negociadas com pesquisadores e 'caçadores' de meteoritos.

Porém, os achados não têm trazido somente riqueza. Também trouxe medo e tensão. Pelo menos é o que relata o morador que encontrou o maior meteorito no município: uma peça de 38,2 kg. Receoso com a segurança pessoal, ele não quer ser identificado.

A mulher do morador que encontrou o mineral de quase 40 kg conta que a família mal tem saído de casa.

“Isso virou um pesadelo. A gente passou uns dias sem comer e dormir. O objeto tem valor e todos têm interesse aqui, não são só os daqui. Se não tivesse valor, ninguém viria atrás, até do exterior", relata a mulher do morador.

No momento da chuva dos fragmentos em Santa Filomena, o morador disse que ouviu o estrondo, mas só ficou sabendo do que se tratava depois. Dias após o fenômeno, ele decidiu procurar em sua propriedade se as pedras haviam caído por lá ou na região, na zona rural do município.

"Na quinta-feira (27), um morador me deu informação de onde houve um grande abalo, um estrondo, uma pancada, como se tivesse enfiado algo no chão. Ele me informou uma localização. Comecei as buscas no amanhecer. Quando foi por volta das 8h30 da manhã, consegui localizar a pedra", conta.

Segundo ele, o fragmento estava enfiado no solo. "Eu retirei e levei até uma estrada aproximadamente 2 km de distância dali, na mão, dentro da Caatinga, até chegar na minha moto. Aí trouxe para a cidade”, relata.

Ainda sem acreditar no tamanho do achado, o homem procurou os pesquisadores para informar sobre a pedra de quase 40 kg que tinha caído em sua propriedade. Mas a repercussão do comércio das pedras foi tamanha que acabou com o sossego da família.

“A gente acha uma pedra dessa, e o pessoal já pensa que a gente virou milionário. Não é bem assim. A gente está muito tenso”, disse o homem que encontrou o meteorito.

O diretor-secretário da Sociedade Brasileira de Geologia e professor do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fábio Machado, analisou imagens da pedra encontrada pelo morador de Santa Filomena. Para ele, trata-se de um meteorito – só falta saber de que tipo.

"Precisamos de testes para cravar que é do tipo condrito, mas é um meteorito. É uma importante amostra", afirmou Machado.

Meteorito do tipo condrito é um mineral importante para a ciência porque tem mesma composição química do início do sistema solar, formado há mais de 4,6 bilhões de anos.

“Os condritos são os melhores fragmentos de meteoritos para se estudar a formação do sistema solar porque representam fielmente a composição química no início da formação dos planetas rochosos. Isso quer dizer que as pedras que caíram em Santa Filomena são mais antigas que a própria Terra", explica Machado.

O professor ainda explica que, antes de entrarem na atmosfera terrestre, os fragmentos que choveram em Santa Filomena eram, provavelmente, uma peça só. Mas o tamanho exato desse meteoro - quando estão no espaço, as pedras são chamadas de meteoro, mas quando caem na Terra passam a ser meteoritos - é difícil de prever.

"Quando o meteoro entra na atmosfera terrestre, ele queima, então se divide em vários fragmentos", explica Machado.

Segundo moradores, entre 100 a 200 fragmentos, incluindo a peça de quase 40 kg, caíram do céu no município sertanejo.

'Foi Deus que mandou

A família que encontrou o maior meteorito do sertão pernambucano conta que a pedra está em um cofre fora da propriedade. Apesar do susto e do medo, eles pensam em comercializá-la, mas por um preço justo.

"Eu acredito que foi Deus que mandou pra gente, porque caiu dentro da nossa propriedade. A gente tem que segurar [a pedra] mesmo", diz a mulher do homem que encontrou a pedra.

 

Conforme o G1 apurou, algumas pedras foram comercializadas pelos moradores à caçadores de meteoritos estrangeiros por até R$40 o grama, o que faria do meteorito de quase 40 kg ter um valor milionário. Um amigo que tem representado a família na comercialização da pedra contou que os mesmos caçadores ofereceram, contudo, 'apenas' R$120 mil.

“A gente teve proposta, mas foi gente querendo se aproveitar e isso não nos interessa. Não temos pressa em negociar a pedra de forma alguma. A gente não deu preço a essa pedra. Não tivemos negociação com ninguém”, enfatizou a esposa.

A Prefeitura de Santa Filomena afirmou que ainda não sabe como proceder nesse caso, já que o município não tem uma legislação própria em caso de meteorito. Por telefone, o prefeito do município, Cleomatson Vasconcelos, afirmou que o município não tem condições financeiras de manter o meteorito por lá.

 

 “A gente não pode criar uma expectativa na população que a gente não possa corresponder”, afirmou o prefeito. Ele disse ainda já entrou em contato com o Ministério de Ciência e Tecnologia e com a Secretaria de Ciência e Tecnologia de Pernambuco para ter orientações neste caso.

Santa Filomena tem 14.172 habitantes, segundo o IBGE. Cerca de 3 mil moram no centro, mas a maior parte está na zona rural, onde predominam plantações de feijão e mandioca.

O ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, disse em entrevista ao G1 na quarta-feira (2) que o caso pode apoiar uma nova legislação.

"Sabendo que no Brasil existe toda essa insegurança em relação ao tema, que a gente possa utilizar esse caso [de Santa Filomena] como um exercício para que possamos desenvolver mais conhecimento sobre essa [falta] legislação e, quem sabe, propor uma legislação ou algum tipo de regulação a respeito", afirmou Pontes.

G1 entrou em contato com a Secretaria de Ciência e Tecnologia para saber se o estado pretende manter um meteorito no município, mas ainda não teve retorno.

 Por Amanda Franco e Laís Modelli, G1 Petrolina e G1





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