segunda-feira, 4 de maio de 2020

Alepe aprova voto de pesar por Valdir Teles



Por unanimidade, a Assembleia Legislativa aprovou voto de profundo pesar, de autoria do deputado Waldemar Borges (PSB), pela norte do poeta, repentista e expoente do reino encantado da cantoria, o inesquecível Valdir Teles. Deus o chamou para alegrar o seu reino celestial no dia 22 de março, abrindo uma cratera de dor, tristeza e saudade no Pajeú. Para justificar seu requerimento, o parlamentar recorreu ao texto abaixo, de minha autoria, postado na mesma noite da partida de quem passou mais de 50 anos fazendo repente e morreu de repente. Leia!
Arrastado de repente para o outro mundo por um infarto fulminante aos 64 anos, no início da noite deste domingo, o poeta Valdir Telles fazia da vida uma poesia. Versejar era o seu dom, a viola, sua paixão. Desafios, nunca fugiu de um só. Era versátil, um monstro sagrado do repente. Só comparável a Louro do Pajeú ou João Paraibano, com quem fez dupla a vida inteira.
Assustado com o avanço do coronavírus no mundo, mesmo não alcançando a sua ilha poética Tuparetama, no Sertão do Pajeú, onde morava, nem a sua Livramento, no Cariri paraibano, berço em que  Deus o colocou no mundo, fez, ontem, sem saber que estava partindo para a eternidade, um belo improviso sobre o vírus da morte.

Valdir falava de flores, dos encantos e encantos do seu torrão natal. Dos seus versos brotavam uma beleza imensurável, apaixonante, de arrepiar e embolar corações. Incapaz de não se verter uma lágrima. Seu canto e maior inspiração estava no campo, na natureza, nos roçados, numa simples borboleta colorida, de passos à sua frente lembrando um balé. 
Sertão, para ele, era galo cantando ao amanhecer, Ave Maria no crepúsculo, cheiro de café torrado, jumento dando as horas, procissões pedindo a chuva que nunca vem. Fez pareia na viola e no repente a vida inteira com João Paraibano, outro monstro sagrado com quem vai se juntar lá no Céu em memoráveis cantorias.
Talvez a infância dura e sofrida, superada no bom combate, tenha ficado como uma foto na parede nunca esquecida, vertente da sua inspiração. Valdir Teles ficou órfão de pai aos 11 anos e como filho mais velho, desde cedo assumiu a responsabilidade de sustentar a mãe e os quatro irmãos, trabalhando como agricultor até os 19 anos, quando resolveu sair do sertão pra tentar a profissão de "operário de firma" na Bahia, chegando ainda a trabalhar em Sobradinho, Itaparica e Paulo Afonso.
Fez bico como retratista nas horas vagas, durante o período que morou na Bahia. Anos mais tarde, o poeta traduziu em versos parte da infância.
Pai vinha de São José/Com uma bolsa na mão/ Minha mãe abria a bolsa/ Me dava a banda de um pão/ Porque se desse o pão todo/ Faltava pro meu irmão".
Em 1979, regressou ao sertão pernambucano quando em uma cantoria da dupla Sebastião da Silva e Moacir Laurentino no Sítio Grossos em São José do Egito  foi apresentado aos poetas pelo Mestre das Artes e Poeta Zé de Cazuza, onde teve a oportunidade de mostrar seus dotes poéticos sendo de imediato convidado para apresentar um programa de viola numa rádio da cidade de Patos.
A partir de 1979, quando fixa residência em Patos, inicia a trajetória poética que já se anunciava de grande dimensão para a cultura popular nordestina. Os anos vindouros marcaram a gravação do seu primeiro LP com o poeta Lúcio da Silva pela gravadora Chantecler, a popularização dos maiores programas do gênero, em emissoras como a Rádio Panati e a Rádio Espinharas de Patos, a participação nos grandes eventos da cantoria e o destaque nos congressos e festivais. 
Em 1993, Valdir Teles muda-se para Tuparetama, cidade vizinha a São José do Egito e também situada no alto sertão do Pajeú, região internacionalmente conhecida como a Grécia dos cantadores e o reino imortal da poesia. Com admirável acesso no meio artístico, Valdir traz em seu rol de confrades artistas como Maciel Melo, Alcymar Monteiro, Chiquinho de Belém, Santana, Flávio José, Flávio Leandro, Galego Aboiador, Nico Batista, Amazam, Bia Marinho, Val Patriota e Raimundo Fagner. 
Seja nos palcos ou sentado num tamborete nas cantorias de pé de parede, Valdir já cantou em dupla com os maiores nomes do universo da poesia popular a exemplo de Louro do Pajeú, Ivanildo Vila Nova, Sebastião Dias, Sebastião da Silva, Zé Viola, Geraldo Amâncio e Zé Cardoso.
Com mais de 500 troféus de primeiros e segundos lugares, uma turnê pela Europa com Ivanildo Vila Nova, outra pelo norte do país até a Bolívia, Valdir foi reconhecido e mencionado em tudo que envolve os grandes nomes da viola. Quando completou 60 anos, ganhou uma festa linda organizada por sua filha, a poetisa Mariana Telles, que é ele de saia, na verdadeira expressão do talento.
Sobre o pai, Mariana fala muito da beleza da sua alma e do seu canto parecido com o pai. "Eu sou uma cópia do meu pai que o destino esqueceu de autenticar", diz ela num dos versos em que se confunde com o pai.
Emocionado na festa dos 60 anos, ao lado dos quatro filhos, Valdir Telles declamou:
"Eu não posso negar que sou feliz/Carregando a viola em minha mão/ A viola levou-me até Milão/Antuérpia, Bruxelas e Paris/Fiz primeiro uma base em meu País/Pra depois pelo mundo viajar/Meu estoque de glórias não tem par/Meu sucesso rompeu Brasil afora".
Na sua página do Facebook, a filha Mariana Telles prestou a seguinte homenagem ao pai. Confira:
Meu pai é o grande amor da minha vida, jamais vou permitir conjugar qualquer verbo em relação a ele no passado. Meu pai é antes de qualquer outra coisa um cidadão de bem, um pai abnegado, um amigo dos amigos. Sua história na cultura popular dispensa qualquer referência. Era um apaixonado pelo verso de improviso, desses que não se via uma semana sem palco ou pé de parede, redutos onde ele construiu o nome e educou com dignidade quatro filhos.
Mas meu pai foi antes de tudo um grande parceiro meu, um grande amigo.
Maior entusiasta das minhas conquistas, aos olhos dele eu sempre fui muito maior. Do seu jeito matuto, saí grandes pérolas de demonstração de afeto sem precedentes.
Meu pai faleceu hoje sem me dizer um único NÃO na vida. Eu precisei ouvir tantos e ainda ouvirei. Mas ele sempre tentava construir o sim e me mostrar os caminhos.
Aliás, ser sua filha é a palavra mágica que me abre portas em tantos caminhos.
Meu pai tem um patrimônio incalculável de amigos, por toda parte, todo extremo.
Eu nunca me imaginei escrevendo isso.
Meu pai descansou na Serrinha, na nossa pátria. Onde cresceu, onde me ensinou a amar.
Eu estou em Recife, sem saber com qual coragem chegar na Serrinha ainda. Mas parece que estou vendo ele me dizer: "Deixa se ser mole, menina mole. Parece que só tem coragem na língua."
E não é que eu sou mole mesmo, Painho?
Mas até nisso eu sou tu".

Inf. Magno Martins

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