domingo, 13 de agosto de 2017

Dia dos pais, sem filhos

Paula Cesarino Costa - Folha de S.Paulo  (Ombudsman)
Um estudo norte-americano apontou que o tema predominante na mídia dos EUA à época da celebração do Dia dos Pais é a ausência do pai. Tal constatação levou a uma série de análises sobre o papel da imprensa na detecção e propagação da "crise da paternidade" e dos prejuízos resultantes de tal lacuna em parte significativa das famílias.
A razão de tal crise estaria nas novas configurações familiares. Muitos pais têm filhos de vários casamentos, fazendo-se ausentes para os que estão fora do núcleo familiar principal. As críticas à mídia se concentram em seu papel de condensadora de preconceitos e estereótipos sobre os papéis de homens e mulheres na criação dos filhos.


No domingo passado, 6, a revista sãopaulo, da Folha, circulou com edição especial sobre o Dia dos Pais, em que perfila cinco homens que "conciliam filhos e hobbies como escalar o Himalaia e ir a shows do Iron Maiden". Na imagem da capa, um pai com duas facetas: de um lado veste camiseta e tem na mão um vaso de planta; do outro, de camisa social, segura um tênis.

O título interno dizia: "Super pais", seguido da explicação de que a vida daqueles pais ia além de trabalhar e cuidar das crias, porque batalhavam para colocar em prática seus hobbies. O texto apontava superpoderes deles como: "criatividade", "navegação", "dirigir", "reconstruir", "correr", "nadar", "plantar", "preservar", "surfar", "tocar".

E os filhos? O que se diz deles? Não aparecem em imagem na capa, nem nas páginas internas. A reportagem se concentra mais em descrever os hobbies dos pais do que mostrar como se relacionam com seus filhos. Por mais que sejam citados como chamados a participar dessas atividades, estes parecem mais apêndices esquecidos.

A abordagem superficial e banal da relação pai-filho despertou a reação de leitores e, especialmente, de leitoras. "Cadê os filhos?! Em que século a Folha parou?! Uma decepção que o jornal perpetue a noção de que as responsabilidades são apenas da mãe", escreveu uma.

A indignação se espalhou na seção de comentários do jornal online e nas redes sociais. Leitoras reclamavam de que aqueles pais conciliavam tudo, exceto a convivência com os filhos. Outros reclamaram de que o jornal ignorou que exercer a paternidade é manter vínculos afetivos e de responsabilidade.

"A paternidade é completamente secundária nas narrativas. Quem cuida dessas crianças enquanto os pais curtem seus hobbies? Qual a participação desses homens na criação dos filhos? Como compartilham as tarefas com suas parceiras? Por que são referências de bons pais?", questionou outra leitora.

Uma blogueira feminista escreveu que, passada a indignação, tinha de agradecer à Folha "por ilustrar de forma tão clara, crua e quase banal a disparidade" da expectativa social entre maternidade e paternidade.

Para Matheus Magenta, editor do núcleo de Cultura, e Roberto de Oliveira, editor da revista sãopaulo, "a vida dos pais retratados não se limita à paternidade, mas isso não significa que os filhos sejam excluídos de suas vidas. Os cinco querem apresentar para os filhos outras possibilidades de viver que não sejam só trabalhar. Em busca de uma vida equilibrada, querem ser pessoas melhores com e para seus filhos."
Magenta e Oliveira dizem que "os filhos são citados no início dos textos e destaque nas páginas" e que "a maioria das críticas se limita à capa de modo descontextualizado e ignora o conteúdo do especial."

Parte das críticas de fato pode ser assim rebatida. Fica evidente ao ler os comentários que muitos nem leram o texto, mas entraram na onda da condenação a partir apenas da imagem da capa. Concordo com os leitores que reclamaram de que o jornal deve estar atento à sua responsabilidade na perpetuação de preconceitos e estereótipos.

Numa análise puramente jornalística, a tentativa de fazer uma abordagem diferente para pauta obrigatória e banal fracassou. Em meio a tantos temas relevantes que a criação de filhos exige dos pais, a revista deixou-se seduzir pela imagem de pais supostamente diferentes e desconectou-se do leitor.

A polêmica sinaliza a relevância do tema. Há medidas a tomar. A psicóloga e consultora em educação Rosely Sayão deixou sua coluna na Folha para trilhar outros caminhos profissionais. O primeiro passo é investir num substituto à altura do seu talento e da angústia que o tema provoca nos leitores.



Inf. Magno Martins

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