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terça-feira, 30 de maio de 2017

Após acusar Dilma, Globo descobre a obstrução judicial de Temer


Em março do ano passado, quando a presidente deposta Dilma Rousseff tentou nomear o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil, a Globo divulgou um grampo ilegal e a acusou de obstruir a Justiça e tentar frear a Lava Jato; hoje, em editorial, o jornal de João Roberto Marinho descobre que Michel Temer nomeou Torquato Jardim para controlar a Polícia Federal e transformar a instituição numa espécie de "guarda pretoriana" do Palácio do Planalto; Merval Pereira, colunista do Globo, também viu na troca de comando da Justiça um ato de obstrução judicial; ou seja: com mais de um ano atraso, a Globo descobre que o golpe que ela própria apoiou tinha como uma de suas finalidades principais "estancar a sangria" 


247 – Em março do ano passado, quando a presidente deposta Dilma Rousseff tentou nomear o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil, a Globo divulgou um grampo ilegal, sem autorização judicial, e a acusou de obstruir a Justiça e tentar frear a Lava Jato. Dias depois, por meio de uma liminar do ministro Gilmar Mendes, Lula foi impedido de assumir o cargo, precipitando a queda de Dilma.

No governo de Michel Temer, um ministro investigado na Lava Jato, Moreira Franco, não foi impedido pelo Supremo Tribunal Federal de impedir seu cargo. O que foi "obstrução judicial" no caso de Dilma passara a ter outro significado com Temer.

Agora, no entanto, a Globo não conseguiu mais esconder a realidade. Em editorial, o jornal de João Roberto Marinho descobriu que Michel Temer nomeou Torquato Jardim para controlar a Polícia Federal e transformar a instituição numa espécie de "guarda pretoriana" do Palácio do Planalto.

Merval Pereira, colunista do Globo, também viu na troca de comando da Justiça um ato de obstrução judicial (leia aqui).

Ou seja: com mais de um ano atraso, a Globo descobre que o golpe que ela própria apoiou tinha como uma de suas finalidades principais "estancar a sangria".

Abaixo, o editorial do Globo:

Em defesa da PF

Enquanto a crise política atinge o Congresso e prejudica as maquinações legislativas contra a Lava-Jato e o combate à corrupção de um modo geral, as ameaças avançam em duas outras frentes

Enquanto a crise política atinge o Congresso e prejudica as maquinações legislativas contra a Lava-Jato e o combate à corrupção de um modo geral, as ameaças avançam em duas outras frentes. Uma está no Supremo, onde há quem pretenda rever o veredicto, com cláusula vinculante — para ser seguido por todos os tribunais —, de que pena pode ser cumprida na confirmação da sentença pela segunda instância; e a outra frente o presidente Michel Temer abriu ontem, com o movimento audacioso de substituir, no Ministério da Justiça, o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) pelo advogado Torquato Jardim, tirando este do Ministério da Transparência, antiga Controladoria-Geral da União (CGU). Jardim não esconde desgostar da Lava-Jato.

Também ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é provável que o presidente o veja como alguém que possa ajudá-lo no julgamento da sua chapa com Dilma Rousseff, pelo tribunal, a partir de 6 de junho. Um objetivo evidente, porém, é controlar, enfim, a Polícia Federal, sonho de todo político implicado em malfeitos.

Não por acaso, em uma das gravações feitas por Joesley Batista de conversa com Aécio Neves, o tucano dirige pesadas críticas a Serraglio, por ele não interferir na distribuição de inquéritos, para entregá-los a delegados confiáveis. Inclusive, ensina como se faz.

A audácia de Temer está no fato de esta intervenção na PF ser esboçada depois que, a pedido da Procuradoria-Geral da República, o ministro Edson Fachin, do Supremo, instaurou inquérito para investigar o presidente, a partir das delações de Joesley Batista. É como se Temer se preparasse para manipular a PF, a fim de não ser investigado como estabelecem os protocolos policiais: isenção, rigor, obediência à lei.

Por sinal, é o que vem demonstrando Leandro Daiello, diretor-geral da PF desde 2011, ao conduzir investigações importantes sob os governos Lula, Dilma e, agora, Temer. Neste sentido, Torquato Jardim não precisaria ter dito, no domingo, que ouviria Temer sobre mudanças na Polícia. Afinal, ela tem dado demonstrações de seriedade e correção durante todo este tempo. A não ser que queiram mudar este padrão.

A Polícia Federal tem subordinação administrativa ao Executivo, mas não pode ser usada como guarda pretoriana dos governantes de turno.

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