Lys estava realizando trabalho de grafite, devidamente autorizado pela Celpe (Foto: internet)
Lys estava realizando trabalho de grafite, devidamente autorizado pela Celpe (Foto: internet)
Após polêmica envolvendo um meio de comunicação local, em que, com colaboração de um telespectador, teria publicado uma fotografia em que aparece a artista Lys Valentim, realizando grafite em um muro no Centro de Petrolina (PE). No “flagra”, Lys teria sido chamada de pichadora. O projeto de pesquisa Cartografia Urbanográfica no Sertão do São Francisco (CAUS), emitiu nota pública em apoio a artista.

Lys estava realizando trabalho de grafite, devidamente autorizado pela Celpe, em que transforma espaços urbanos.

Confira o teor da nota:
O projeto de pesquisa Cartografia Urbanográfica no Sertão do São Francisco (CAUS), da Universidade do Estado da Bahia, manifesta apoio a artista Lys Valentim por conta do lamentável caso construído por um blog de Petrolina (PE) no exercício do chamado antijornalismo. Repudiamos a violência intelectual e de gênero à qual foi submetida e prestamos nossa solidariedade nesse momento difícil e de danos irreparáveis.


O conjunto de pesquisadores do CAUS reafirma o respeito por todos aqueles que integram o universo das manifestações artísticas no ambiente urbano. E é exatamente por respeitá-los que não podemos deixar de nos manifestar sobre o episódio com a artista.
Lys Valentim e tantos outros artistas de rua são pessoas sensíveis aos espaços. Elas experienciam o meio e têm consciência dele ao ponto de procurarem captar sua essência em signos gráficos. As expressões simbolizam o sentimento humano. São híbridas e espontaneamente reconhecidas.

A linguagem plurissignificativa da arte urbana é capaz de abranger conteúdos interdisciplinares factuais, isto é, cria narrativas atuais acerca do espaço onde está inserida. Não necessariamente são obrigadas a expor representações alinhadas com os valores artísticos vigentes. De forma independente, a arte urbana segue questionando as imposições estabelecidas pela indústria cultural, tornando-se um movimento de resistência e subversão.

A nota de esclarecimento da instituição envolvida no episódio é mais um reforço de um conjunto de interpretações estanques sobre as intervenções artísticas no espaço urbano. Não conscientiza, não educa. Negligencia os diálogos entre a obra e o espaço, entre o espaço e o público e entre a obra e o público. Por toda sua representação indicial, nenhuma manifestação artística da rua merece ser reduzida à depredação. Ao contrário, deve ser compreendida como expressão que busca provocar o olhar para o que não está sendo visto ou tornar visível o diferente. O pixo, por exemplo, pode ser considerado uma das expressões mais espontâneas e autênticas da arte contemporânea. Nenhuma estratégia de interesse privado ou governamental é capaz de corromper a arte de rua. Essas manobras não passam de uma política de exclusão a serviço do mascaramento dos conflitos vigentes.

A academia tem se sensibilizado para os contextos de existência. Realidade que apenas se confirma a partir do acesso dos guetos aos espaços de conhecimento. Atualmente, são muitos os pesquisadores da região atentos às expressões urbanas: Odomaria Macedo, Elisabet Moreira, Luiz Adolfo, Cecilio Bastos, Flavia Pedrosa, Elson Rabelo, Cátia Cardoso, Josemar Martins Pinzoh, Clarissa Campello, Paulo Soares, Euriclesio Sodré, Monica Farias, Sarah Hallelujah, Matheus Carrier, Ubirajara Lima e muitos outros. É preciso ratificar a memória e continuar tentando conscientizar os conservadores, os intolerantes, os racistas, os machistas, os homofóbicos, os xenófobos. Não percamos o diálogo de vista.

Nas cidades de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) transitaram expoentes da arte de rua. Hoje, a velha e jovem guarda dialogam muito bem. O nosso respeito a Miécio Caffé, Celestino Gomes, Euvaldo Macedo, Coelhão, Binha, Lêdo Ivo, Manuca, Jocélio Bello, Junior Rocha, Sérgio Sá, Gordo Lambe-Lambe, Chico Egídio, Cristiano Lima, Junior Souza, Euri, Pollyana Mattana, Candyce Duarte, Daiandreson Victor, Tripa, Nally Maria, Thiago Alves, Morgana Caroline, Iehoshua Iahueh, Kekê, Thom Galiano, Andre Brandão, Luisa Magaly, Cris Crispim, Marcos Velasch. Um salve para os coletivos. Essa não chega a ser uma fração dos ilustres artistas que tornam as nossas ruas mais lindas através da diversidade das expressões.

Para a artista Lys Valentim, já uma expoente da arte de rua no Vale do São Francisco, nossa sincera admiração. Não deixe de presentear a população com as suas percepções de mundo, revelando discursos dos variados contextos de existência e fazendo das cidades um território educador. O que você faz, seguindo as palavras do nosso mentor teórico Bruno Latour, é uma redefinição das coisas defeituosas que se acumulam no projeto de modernidade. “Reset Modernity!” Força, atitude e arte contra os movimentos de opressão.